Doença de Legg-Calvé-Perthes

O que é?

É uma doença autolimitada, isto é, começa e termina mesmo sem qualquer tipo de tratamento, que ocorre no quadril de crianças de 2 a 12 anos, mais frequentemente dos 4 aos 9 anos, e pode ou não deixar seqüelas, dependendo da gravidade da doença, pois causa deformação na cabeça do fêmur (quadril).

Como e porquê ocorre?

Ocorre que o núcleo de ossificação da cabeça do fêmur (porção do fêmur que compõe o quadril = epífise femoral) sofre, sem motivo conhecido, perda temporária de irrigação sanguínea, entrando em processo de necrose (“morte”) e devido ao peso do corpo se fragmenta e perde seu contorno esférico, causando a doença (fig 1). Em seguida haverá naturalmente uma revascularização desta epífise, o osso “morto” será reabsorvido e osso “vivo” e novo será depositado no local. Este processo pode demorar de 1,5 a 2 anos (tempo que dura a doença) e neste período a criança estará em tratamento onde medidas serão tomadas para que esta “nova” cabeça femoral seja o mais semelhante possível com a original.

Radiografia de bacia de um garoto de 7 anos, onde a seta vermelha mostra epífise femoral normal. A seta amarela mostra a perda da esfericidade da epífise acometida pela doença de Perthes.

A enfermidade de Perthes pode se manifestar em graus variáveis de gravidade. Nas formas mais leves, apenas uma pequena porção central da cabeça femoral entra em processo de necrose, deixando intacta todo o resto da epífise. Nestes casos o prognóstico é bom e há grande chance de após o término da doença o formato da epífise permanecer igual ao original, não deixando seqüelas. Por outro lado, nas formas mais graves a extensão da necrose pode chegar a ¾ ou até a totalidade da cabeça femoral. Nestes casos o prognóstico é pior e são grandes as chances de que a cabeça do fêmur fique com algum grau de deformação (perda da sua esfericidade característica), o que poderá causar incongruência articular levando à limitação dos movimentos e desgaste prematuro desta articulação.

Como dito acima, a causa é desconhecida. Afeta 4 vezes mais os meninos que as meninas. É rara na raça negra.

Quando desconfiar?

A criança sem motivo aparente começa a queixar-se de dor, de intensidade variável, no quadril, que frequentemente irradia-se pela parte interna da coxa e joelho. A dor geralmente se intensifica com atividades físicas e pode durar várias semanas. Comumente a criança manca devido à dor.

Estes sintomas podem ser intermitentes, isto é, em alguns dias dói, outros não.

O diagnóstico

Deverá ser feito por seu ortopedista, que após exame clínico completo, provavelmente conseguirá “fechar” o diagnóstico com radiografias simples da bacia. Entretanto, no início da doença, a radiografia pode ainda não apresentar alterações e haverá necessidade de outros exames.A cintilografia óssea é um bom exame para diagnóstico precoce pois mostra alteração antes mesmo que a radiografia. Porém por ser exame mais invasivo só deverá ser solicitada se houver forte suspeita clínica.

A Ressonância Nuclear Magnética pode também ser solicitada para se avaliar a gravidade da doença.

O tratamento

Não existe uma “receita” de tratamento que seja adequada a todos os casos. O tratamento será individualizado e dependerá de vários fatores, como por exemplo a gravidade da doença e a idade de início da mesma pois quanto menor a idade, melhor o prognóstico e o tratamento poderá ser mais simples.

O objetivo do tratamento é manter a epífise femoral o mais esférica e bem encaixada na bacia possível, e um quadril com boa mobilidade e bom arco de movimento.

A grosso modo, podemos diferenciar dois tipos de tratamento:

a) Nas crianças mais novas, com doença na forma leve, serão tomadas medidas apenas para manter boa mobilidade do quadril;

  • fisioterapia
  • natação
  • suspensão de outras atividades físicas e esportivas
  • uso de muletas para diminuir carga no lado afetado
  • etc.

b) Nas crianças mais velhas, com acometimento mais extenso da epífise, além das medidas acima, será feito tratamento no sentido de prevenir a deformação da cabeça femoral;

  • uso de aparelhos ortopédicos / ou
  • cirurgias, na bacia ou fêmur

O tratamento da doença de Perthes é ainda hoje controverso e tema de “Mesas Redondas” em congressos por todo o mundo. Fato é que diferentes tratamentos podem gerar resultados semelhantes e cabe ao médico – ortopedista analisar as variáveis e optar pelo tratamento que lhe parece mais sensato para cada criança.